12.12.06

Temporais nas beiras do mundo

Reitero a minha opinião de que os temporais são mesmo do céu. Calma! A redundância se justifica: à medida que as chuvas são mais fortes, as especificidades do lugar vão-se dirimindo. Parece que a terra das chuvas é uma só. E quanto mais interna a análise, mais fortaleço a colocação.
Tudo bem. Vou-me explicar melhor.
A maioria da população mundial vive em áreas não saneadas — não tenho dados estatísticos que comprovem esta informação, mas já cansei de ler e ouvir em veículos de comunicação tal informe que o tenho como dogma. E os que vivem em áreas com devido esgotamento, galerias subterrâneas e canais prontos a dar vazão às precipitações pluviais, quando vitimados por temporais, não diferem tanto dos que só tem a terra pra sugar a água. Bueiros entopem, canais transbordam. Tudo alaga, enfim. Quem é esperto fica em casa, tira tudo da tomada, sai de perto de objetos eletrônicos, e espera. Quem está na rua, nos carros, tende a procurar locais seguros para abrigar-se. É aí que a magia reversa ocorre: a densidade da tormenta é tão avassaladora que as paisagens vão desaparecendo. No Rio de Janeiro, ninguém vê o Corcovado; Em Paris, a Torre Eiffel parece que foi desmontada; o que dizer dos imponentes edifícios nos países emergentes do sul asiático e Oriente Médio? Será que eram montagens dos cartões postais?
Pois bem, por enquanto, tudo é visto pelos olhos do ser humano. E em qualquer lugar, a acuidade visual considerada normal pelo senso comum não enxerga mais nada a poucos metros. Justo nestes momentos em que deixamos de ver o que há em volta, em que buscamos paciência para a espera, em que as maravilhas da tecnologia moderna devem ser desligadas, o passatempo mais natural é deixar que estes olhos acostumados ao mundo exterior se desconectem da função. Esta é uma hora em que o camponês de Bangladesh ou o executivo de Manhattan se parecem um pouco mais. Sitiados, muitas vezes eles só têm a si. Hora de olhar pra dentro.
Eu me vi nesta situação há poucas horas. Optei por ler enquanto ainda podia utilizar um pouco da luz natural. Mas antes das 17 horas já não era mais possível fazê-lo sem forçar a visão. Ao acender uma lâmpada para ler o capítulo seguinte, entrei na parte da trama em que o personagem principal de O Jogador, de Dostoievski (escritor russo; 1821-1881) entra em seu quarto ao cair da noite, decidido a não voltar mais ao cassino e encontra a mulher que ama sentada em seu divã, à sua espera. Eis um dos grandes momentos do romance. Parte elucidativa. Elucidativa, sim, mas... e a luz? Claro! Há de se ter uma luz acesa. O que seria do romance sem as representações simbólicas de luzes, velas, chama, sombras?
Dei-me conta, neste momento, tomado pelo envolvimento quase imantado que o livro me punha, quase escutando os dizeres daquele quarto de hotel alemão de meados do século XIX, que eu estava num momento mais do que propício a viver algo assim. Sim, eu precisava apagar imediatamente a luz. Não pestanejei. Acendi o primeiro toco de vela que encontrei e ele passou a ser a iluminação de minha sala (ninguém disse que a vela precisava ser bonita). Deixei o livro pra depois. Era a hora de viver a época. Era hora de voltar aos primórdios, aos primórdios do meu próprio ser. O barulho era rajada de chuva e vento e a luz era vinda da chama.
Quanto mais interno o momento, mais parecido com lugares e tempos. Mais embrionário.
Li a mim.

Um comentário:

Andrea Medrado disse...

Chuva é pra ficar escutando mesmo. E escutando a própria respiração, os próprios batimentos cardíacos e os próprios pensamentos. Também gostei do Meio do Mundo! E sim, tô bem por aqui.